Qual o balanço que faz desde que a Greenvolt entrou em bolsa?

Tínhamos competências na biomassa e era uma área que queríamos capitalizar. Nos projetos de maior dimensão (utility-scale) dissemos na altura que havia uma escassez a nível europeu. E dissemos que o futuro do desenho da eletricidade passava muito pela atuação no [segmento] descentralizado. Cumprimos o plano de negócios, fazendo ajustamentos de detalhe.

No contexto de alguma redução de investimento por parte de empresas de renováveis, a Greenvolt devia também fazer esse ajustamento?

O que vejo, pelo contrário, é muitas oportunidades que vamos explorar, com outros meios financeiros. Há coisas muitíssimo interessantes. Não tenciono entrar em países de mais risco. Será sobretudo Europa. Há imensas oportunidades em países onde já estamos.

Poderemos ter uma produção de eletricidade 100% renovável?

Poder, pode. Mas não faz sentido estar a pagar uma fortuna para descarbonizar os últimos 2% a 5%. Onde se tem de descarbonizar mais é nos processos industriais, no aquecimento e arrefecimento, nos transportes. Se conseguirmos levar a eletricidade a 90% [de renováveis] já é um grande resultado.

Como vê a utilização de baterias e a tendência de decréscimo do custo dos equipamentos. Ainda há margem para cortar custos?

Hoje em dia o aproveitamento do diferencial de preços durante o dia não é suficiente. Vão ser necessários mecanismos complementares. O que considero mais eficaz é uma garantia de potência a longo prazo, que permita criar um fluxo de rendimentos que represente 40% a 50% do cash flow. É isso que temos na Polónia.
É preciso, por um lado, alargar o parque, por outro lado, ter uma estrutura tecnológica mais diversificada. Não deve ser só sol, deve complementar também com baterias, uma área onde estamos a apostar bastante.

Onde vamos buscar a eletricidade renovável e o incremento da descarbonização dos consumos de energia?

Uma boa parte tem que ir buscar ao [segmento] descentralizado. Pode ter um peso gigantesco. Queremos mais renováveis na matriz. Em Portugal em grande parte isto vai ser cumprido com [o segmento] descentralizado e hibridização (utilizar os pontos de ligação à rede já existentes para ligar outras tecnologias). A hibridização é fundamental. Temos que pensar também em eletrificar mais o consumo.

A eletricidade hoje corresponde a um quarto do consumo final de energia de Portugal. Como se vai descarbonizar os consumos que não são fáceis de eletrificar?

A eletrificação pode ser muito mais profunda. Um dos grandes consumos da indústria é calor, que pode também ser produzido pela eletricidade. Não se vai eletrificar tudo, mas diria que a curto prazo a eletrificação é fundamental. Nos próximos anos vamos continuar a precisar de uma tecnologia térmica, cada vez menos utilizada, mas que sirva de backup. O gás natural vai continuar a ser uma fonte importante para dar solidez ao sistema elétrico.

Mas precisará de algum tipo de apoio. Não é viável uma central existir para funcionar 5% das horas do ano.

Claro. O apoio é precisamente a garantia de potência. E muito mais barato do que pensar em soluções que me parecem não defensáveis economicamente, como o hidrogénio como elemento de armazenamento. O hidrogénio [verde] a nível de processos industriais tem um efeito muito grande substituindo o atual hidrogénio cinzento, mas armazenar eletricidade em excesso em hidrogénio é caríssimo, é uma loucura.

O Governo português tem de enviar a versão final da atualização do PNEC à Comissão Europeia. O que deve Portugal propor para 2030?

Onde mexia era numa aposta fundamental no descentralizado. Que não precisa de subsídios. O Estado tem que agilizar processos de licenciamento e também os incentivos à E-Redes, para que dê a importância necessária a isto. Não é dar mais dinheiro. É levar a que na fórmula de remuneração da E-Redes a parte de viabilização de mais renováveis tenha um peso.

Qual a sua opinião sobre eólicas no mar em Portugal?

Sempre defendi o leilão eólico offshore, mas também sou de opinião de que há momentos em que não devemos tentar ser o primeiro da classe. Faz sentido Portugal ter projetos preparados para offshore, desde que não atribua direitos de capacidade e preços garantidos muito elevados. É preciso deixar evoluir a tecnologia.

Portugal apostou, e bem, nas primeiras décadas do século no eólico, que era mais barato. Enquanto os espanhóis se encheram de painéis solares com tarifas de mais de €300 por megawatt hora (MWh), Portugal não o fez. Fez bem. Ser o primeiro da classe? Apostar gigantescamente no hidrogénio? Deixe ver a tecnologia. Sou a favor de que se vá avançando, mas deixando a tecnologia evolui.